21 janeiro 2006

Manuscrito redescoberto pode reabilitar Judas

Judas, o homem que, por 30 moedas, entregou Jesus aos soldados que o crucificaram, não seria um traidor mas sim um herói.Esta interpretação da historia pode ganhar força graças a um antigo documento que só agora está sendo traduzido. Sua publicação, prevista para abril, já causa polêmicas e divide os católicos.
O manuscrito, em copta, é do século quatro e foi descoberto nos anos 70, no Egito. Desde então passou por várias mãos e muitas aventuras, até chegar aos cofres da Fundação Maecenas for Ancient Art (Mecenas para Arte Antiga, em tradução livre), de Basiléia, Suíça - atual proprietária, em sociedade com a National Geographic.
O texto, mantido sob sigilo, está sendo traduzido para inglês, francês e alemão por Rudolph Kasser, considerado o maior especialista em língua copta do mundo.

Apócrifo
Quanto ao conteúdo, estudiosos que tiveram acesso à copia de alguns trechos dizem que não há duvidas. O texto transcreveria o "evangelho de Judas", um apócrifo do século I.
Os evangelhos são a principal fonte de informações sobre Jesus Cristo. A igreja reconhece quatro, que define como canônicos: Mateus, João, Marcos e Lucas. Os apócrifos não têm autoridade canônica, mas influenciaram a interpretação da história e a maneira como ela foi reproduzida através da arte.
Na opinião de alguns estudiosos, o documento poderá revolucionar o modo de entender a primeira fase do cristianismo. E dar uma nova imagem ao homem que traiu Jesus com um beijo.
O "evangelho de Judas" teria sido escrito por membros da seita gnóstica cainita, um movimento religioso cristão que misturava misticismo e filosofia e influenciou grupos heréticos.
Na visão dos cainitas, Judas Iscariotes teria seguido um desígnio divino e não podia fugir de seu destino. A traição faria parte do plano de Deus, era necessária, e sem ela não haveria salvação para os homens.

Confirmações
A existência desse evangelho e sua interpretação da figura do apóstolo, considerado maldito, é comprovada por diversos autores, entre eles S. Irineu, no texto Contra as Heresias, escrito no ano de 180.
Segundo monsenhor Walter Brandmuller, presidente do Comitê de Ciências Históricas do Vaticano, os cainitas achavam que o mundo era expressão do mal. O bem existia apenas na dimensão transcendental.
“Viam de modo positivo todas as figuras negativas das escrituras sagradas hebraicas e cristãs. Uma forma de oposição ao deus criador deste mundo, um deus mau, que ignorava o Deus verdadeiro", disse.
Monsenhor Brandmuller nega, contudo, que o Vaticano esteja promovendo uma campanha para reabilitar Judas. Na sua opinião, o novo documento, que define como uma espécie de "ficção histórica", não deve provocar grandes mudanças. "Será um testemunho precioso para conhecer melhor o cristianismo primitivo", afirmou.
Outros católicos consideram importante uma revisão da figura que acabou se tornando sinônimo de traição e que ainda hoje é simbolicamente castigada, através da "malhação de Judas", no Sábado de Aleluia.

Possuído
Para São Lucas e São João, Judas traiu porque estava possuído pelo demônio. O escritor Vittorio Messori acredita que o manuscrito copta pode dar um impulso na reabilitação de Iscariotes.
Segundo o autor de vários livros sobre a Igreja Católica e amigo de João Paulo 2°, esta revisão é necessária. Resolveria, segundo ele, um problema aberto de justiça e misericórdia de Jesus, que teria perdoado a covardia de Pedro, mas não a traição de Judas.
"No evangelho apócrifo, Judas se arrepende. Jesus lhe concede o perdão e o manda para o deserto para fazer exercícios espirituais. Nos evangelhos canônicos ele se suicida. Não há sinal de perdão, apesar de Jesus ter ensinado a perdoar os próprios inimigos”, afirmou Messori para o jornal La Stampa.
A idéia de um desígnio divino não é novidade, na avaliação de Alberto Mellone, professor de história da Igreja Católica. "Esta interpretação faz parte de uma catequese difusa", disse.
Mellone descarta também que a figura de Judas tenha tido alguma influência no surgimento e enraizamento do anti-semitismo.
Alguns estudiosos defendem esta hipótese e acreditam que uma reabilitação da figura de Judas possa contribuir para o diálogo entre católicos e judeus.
"O anti-semitismo cristão nada tem a ver com Judas mas com os sacerdotes de Israel. Baseou-se na acusação de assassinato de Jesus e não em sua delação", afirmou Alberto Mellone.
Fonte: Estadão

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